a pile of books

Nel mezzo del cammin di nostra vita

Já que estou, de acordo com o famoso incipit, nel mezzo del cammin di nostra vita, pensei em escrever para o meu eu mais jovem, algo que gostaria que um Virgílio tivesse me ensinado quando penava para encontrar o caminho de saída da selva oscura. Num certo ponto da vida, um homem se encontra como o Heracles na encruzilhada de Xenofonte. Isso foi para mim o início da adolescência, um período que ardentemente detestava. Numa forma um tanto menos idealística que o mito hercúleo, não posso dizer que fiz uma escolha, já que foi muito antes que pudesse expressar tudo isso a mim mesmo. A alternativa era tão absolutamente, visceralmente repugnante, que simplesmente segui a luz tênue que via na escuridão.

Pompeo Batoni, Hercules at the crossroads
Pompeo Batoni, Hercules at the crossroads

Acima é o que li nos últimos doze meses (24 livros no total, mas alguns são digitais ou não tenho comigo, a lista completa se encontra nesta página). Os gregos estavam corretos: uma mens sana é construída através de esforço árduo e educação. A virtude/excelência é um hábito, e a felicidade é a atividade virtuosa. Aristóteles entalhou (o significado literal da palavra caráter, χαρακτήρ, do verbo χαράσσω) na alma do homem com essas poucas palavras os princípios de uma vida feliz (εὐδαιμονία, não o sentimento fugaz para o qual hoje se usa essa palavra).

Esse é o caminho reto e estreito: cultivar a própria alma, voltá-la a coisas sempre maiores (semper sursum), para a verdade, o bem, a beleza. Esse é o caminho para tornar-se o seu verdadeiro eu — não quem que se quer ser, mas quem se é destinado a ser. Para ser perfeito (o mesmo τέλειός de Aristóteles, ambos significam “ser completamente realizado”, “ter cumprido o seu propósito”) como é Aquele que está nos céus. Serás implacável. A tua mente procurará os objetivos corretos, e tu terás tanto os meios quanto a disciplina para alcançá-los. Será um deleite, o esforço será prazeroso. Isto, finalmente, é a felicidade.

Todo o resto é ilusão. Som e fúria que nada significam. Ignora o resto. A vida é curta demais, preciosa e bela demais. Não será fácil. Não deves suplicar por uma vida fácil. Serás solitário, e na maior parte do tempo não serás nem apreciado. Terás que aprender a desistir de pessoas, dos que não têm o mesmo fogo ardendo dentro deles, os que querem continuar a viver uma vida infantil. Doerá. Mas te habituarás, e começarás a ver como um dom: pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?

Bem-aventurado é o homem que luta para ser em vida como deseja ser encontrado na morte, escreveu Thomas à Kempis. E que eu morra (uma prospectiva sempre mais próxima) ecoando estas duas palavras de Heráclito, o Obscuro, que escreveu tão brilhantemente precisamente porque era o filósofo das lágrimas:

ἐδιζησάμην ἐμεωυτόν

procurei a mim mesmo